Kubitschek Pinheiro
Fotos – Isabella Moriconi
Hermínio Bello de Carvalho completa 91 neste sábado (28), e quem ganha presente são os leitores do MaisPB, que conversou com o artista sobre o lançamento do recém-lançado álbum de inéditas Hermínio Bello de Carvalho – 90 anos (Biscoito Fino). São belos versos do seu baú cheio de inéditos –
Os convidados de Hermínio Bello de Carvalho nesse disco são Simone, Frejat, Ayrton Montarroyos e Áurea Martins –
Uma marca de seu trabalho foi a criação do Projeto Pixinguinha, em 1977, que passaria a promover apresentações musicais pelo Brasil afora, divulgando o repertório de artistas diversos brasileiros. Em 1965, ganharia a primeira projeção com o espetáculo Rosa de Ouro, que lançou Clementina de Jesus.
Com bases gravadas pelos músicos Ivan Machado (contrabaixo elétrico), Kiko Horta (acordeão e piano), Marcus Thadeu (percussões) e Vidal Assis (violão), o álbum “Hermínio Bello de Carvalho 90” traz a voz do poeta nonagenário, que recita o poema “Las hormigas”.
Capa do álbum
Vários espetáculos marcam a cultura brasileira, saíram da cabeça de Hermínio “Fala Mangueira”, parceiro de ases do porte de Cartola, Pixinguinha, Elton Medeiros, Zé Kéti, Paulinho da Viola, Chico Buarque e Dona Ivone Lara, gravado de Gal e Bethânia a Elza Soares, passando por Elizeth Cardoso e Nora Ney
MaisPB – Que disco belo – abre com Nada valeu a Pena – com Simone cantando, parece um canto triste, porque na verdade nada parece valer a pena, né Hermínio, a música, a letra faz um julgamento de nós mesmos, do amor – vamos começar por aqui Hermínio?
Hermínio Bello de Carvalho – É minha única parceria com Simone e, me desculpe a imodéstia, amei o resultado. Simone é muito amada, é uma das nossas maiores cantoras românticas do Brasil – e lembro a Nana Caymmi, Elizeth Cardoso, Nora Ney, Isaurinha Garcia (gravei com todas elas) e outras intérpretes igualmente poderosas como a Billie Holiday, Nellie Lutcher, Amália Rodrigues, Edith Piaf . E que lindo timbre o da Simone, Santo Deus!!!
MaisPB – A segunda faixa, Carrapicho com Frejat, que maravilha – lembra muito as coisas do sertão, os carrapichos da vida, a coisa do encosta na gente, mas que mexe muito com o desejo, né Hermínio?
Hermínio Bello de Carvalho – Antes de tudo, informo que essa é nossa segunda parceria, minha com Frejat – e meu desejo é que ela prospere, porque adoro o trabalho do grande músico que ele é. O “Carrapicho” é, na sua origem, um poema que adoraria que fosse musicado – e Frejat o fez. Fez e gravou lindamente. Repare que interpretação vigorosa, difícil ficar indiferente à essa faixa do disco. E a sua observação é procedente : o desejo está ali presente – mas não de forma convencional.
MaisPB – A quarta faixa é como um monólogo – o texto lido é arrepiante e você cantando que a voz linda. Vamos falar desse poema, dessa canção tão bonita?
Hermínio Bello de Carvalho – Sempre gravo um poema em meus discos, sempre. No CD anterior (´Cataventos´) , editado pelo SESC/SP) tive o privilégio de ter a Fernanda Montenegro cumprindo esse papel. E o fez de forma absurdamente, como dizer? catártica.
MaisPB – A terceira faixa, Igual ao que não foi – é uma viagem, uma lição de moral em quem finge, não fica bem assim. Áurea Martins foi uma boa sacada, né Hermínio?
Hermínio Bello de Carvalho – Acho importante suncê citar a Áurea – e vale informar que a Divina Elizeth Cardoso – sempre ela! – raramente saía à noite de casa para ouvir outros intérpretes – mas não era raro encontrá-la nos espaços onde a Áurea se apresentava. Era fã, fã mesmo! Aliás, aproveito para informar que igualmente me considero um fã em tempo integral. E isso vem de longe, quando, ainda garoto, eu frequentava os programas do César de Alencar e do Manoel Barcelos – na Rádio Nacional, claro! Eu amanhecia na fila da bilheteria para comprar meu ingresso. Isso mudou quando, ainda aos 16 anos, me tornei repórter e colunista de uma revistinha chamada Rádio-Entrevista – com direito ao livre acesso aos bastidores naquela poderosíssima emissora. Mas nunca deixei de ser fã – e, já reporter, fui a uma entrevista que a Ava Gardner deu no Copacabana Palace onde se hospedou depois de ter promovido um quebra-quebra no hotel Glória onde se hospedara. Aproveitei e, pimba! pedi um autógrafo a ela… ; ( Me desculpe, acabei me distanciando de sua pergunta ) , vamos lá : o ‘Igual ao que não foi” é a única faixa não inédita do disco, e explico : Vital Lima é um dos meus principais parceiros, um músico extraordinário – e com ele compus o “Igual o que não foi” – que ele gravou lindamente em 1978 em seu primeiro disco – o “Pastores da noite”. E quando recentemente compusemos a faixa interpretada pela Áurea, percebemos que havia uma conexão entre as duas canções – daí fizemos um bloco único – e deu certo – e como deu!
MaisPB – Como é chegar aos 90 anos em pé, com vontade de viver mais e mais?
Hermínio Bello de Carvalho – Pra começar, não sei se desejo viver mais e mais (disse ele rindo) – reflito bastante sobre finitude. Mas, enquanto não for chamado pro andar de cima, vou continuar trabalhando diariamente – porque adoro trabalhar, e já estou trabalhando em meu próximo livro, construindo meus poemas.. E escrever é um ato de construção, um poema é metaforicamente uma casa construída tijolo por tijolo, verso a verso, até consolidar-se como pronta a edificação – com largas janelas e portas abertas para aqueles que, num futuro qualquer, venham usufruir desse ato de amor.
MaisPB – Eu gosto muito de Ayrton Montarroyos interpretando Cabernet Sauvignon, sua e de Vidal Assis – e fala de dois rapazes de mãos dadas. Vamos falar dessa canção?
Hermínio Bello de Carvalho – Ayrton é um artista vivendo a sua plenitude. Canta linda e inteligentemente. Em meu CD anterior ele gravou “Labaredas”, uma canção que fiz com o Divino Cartola. O “Cabernet Sauvignon” provocou um comentário publicado pelo crítico Mauro Ferreira : “Aos 90 anos, Hermínio Bello de Carvalho escreveu a primeira letra explicitamente gay do cancioneiro do compositor”. Equívoco : abordei esse tema em algumas composições e também nos 20 e poucos livros que compõem a minha bibliografia. Pelo menos ele não se equivoca ao comentar ” que o versos são servidos como vinho pelo cantor Ayrton Montarroyos em gravação feita com o violonista João Camarero para o álbum comemorativo dos 90 anos do poeta da MPB.”
MaisPB – Dia sim, dia não, você chamou Simone novamente para cantar – que voz, que artista brasileira da maior importância, né mestre Hermínio?
Hermínio Bello de Carvalho – Essa gravação guarda uma peculiaridade : não fujo a um compromisso que assumi ao longo de minha carreira discográfica : a de revelar novos autores. E, nesse caso específico, tive como meu mais novo parceiro um jovem de 26 anos, Gabriel Lemuriano, diplomado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Vale uma informação: do meu CD fazem parte dois ex alunos -Vidal Assis e Gabi Buarque – que frequentaram, há mais de 20 anos, a Oficina que ministrei na Escola Portátil de Música da Casa do Choro onde, por sinal, exerço a função de Presidente do Conselho Consultivo daquela instituição Cultural-Educativa. Aliás, e a propósito, Gabriel há pouco citado igualmente estudou na referida Instituição. Simone se encantou pela música e a gravou lindamente.
Fale-me de Gabi Buarque, nesse Jogo Empatado, que voz linda e a letra mete um cartão vermelho no amor. Conta pra gente sobre essa canção nesse ritmo futebolístico?
Hermínio Bello de Carvalho – Olha, meu conhecimento futebolístico é zero, embora tenha sempre na ponta da língua alguns nomes: Castilho-Pindaro-Pinheiro, Zizinho, Biguá, Berascocheia, e o autor daquele gol que inspirou Pixinguinha a compor o choro ” Um a zero” – como é mesmo o nome dele? Esqueci .. (Friedenreich, descobri depois, o foi o primeiro negro a jogar profissionalmente no Brasil…). Fui uma única vez ao Maracanã, levado por meu amigo e parceiro Maurício Carrilho, hoje professor da Escola Portátil. Ele não me explicou previamente que ,no segundo tempo da partida, os jogadores trocam de lado no campo – e isso me causou quase um trauma irreversível do qual até hoje não me recuperei. Ridículo, ridículo!
MaisPB – Você já veio a Paraíba?
Hermínio Bello de Carvalho – No tempo em que trabalhei na Funarte ( Projetos Pixinguinha, Projeto Lúcio Ranel de Monografia, etc…) viajei profissionalmente por quase todo o Brasil.
MaisPB – Me diga quem é Hermínio Bello de Carvalho?
Hermínio Bello de Carvalho – Aos quase 91 anos continuo sendo um trabalhador obsessivo, um agitador cultural semiaposentado, um sonhador inveterado, e uma pessoa que teve o privilégio de ter dois gênios como parceiros, Cartola e Pixinguinha, e que nunca nas entrevistas deixou de citar o nome de uma extraordinária figura chamada Clementina de Jesus que até hoje ilumina minha vida.
Escuta aqui Hermínio e Simone
Veja imagens dos bastidores da gravação do disco
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