Quarto de hotel

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Quarto de hotel
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Uma diária, uma noite, e eu ali viajando em esquinas mais agitadas, como se eu fosse jovem e quisesse voltar a Rua das Ninfas, no cruzamento da Rua Conde da Boa Vista, cebtro do Recife, mas me perdi de vista, tentando chegar ao ´Bar Depois do Escuro´,  mas aí a gente é levado para outras correspondências. A janela parece ser o lugar mais íntimo de um quarto de hotel ou o espelho, os lençóis.

Tentando responder à segunda demanda, porque não lembro da primeira e se sequer existiu, o que pode um homem ouvir algo que venha a calhar – diríamos: tudo ou nada em dobro. O pensamento longe de quem está ligado o tempo inteiro, mas o pensamento não existe, não se escreve no timing tardio.

 Fomos ao Recife reencontrar o pintor Raul Cordula, o pai de minha mulher, Francis – foi o aniversário dele, 84 anos. O centro da cidade parecia deserto, pensei que a pandemia tinha voltado, mas não, era um sábado à noite e voltamos no domingo. Dessa vez ficamos no Hotel Central, no centro da cidade

 O hotel é uma construção de estilo eclético e traços greco-romanos mas nos últimos anos vem sendo cenário de uma transformação inspiradora. Foi tombado pelo governo e teve entre seus hóspedes Getúlio Vargas, Carmem Miranda e  Roberto Carlos. Hoje, é comandado por Rosa Maria, uma ex-camareira que se tornou a proprietária e administradora do espaço. Incrível, né?

Pedimos a suíte que o rei Roberto Carlos se hospedou, mas a moça disse que esse quarto está sempre ocupado, que mora um hóspede eterno. Lembrei das supertições do Roberto.  Logo pensei: que tal ficar no quarto que Getúlio dormiu? Não, Getúlio não, mas a recepcionista se adiantou: “os colchões são todos novos, senhor”. Não sei como ela leu meu pensamento, se nem mencionei o quarto do Getúlio Vargas.

Subimos para o terceiro andar, onde Carmen Miranda dormiu, mas ninguém sabe qual foi o numero do quarto. Da janela, vi a solidão de casais idosos indo no sentido da Igreja de Basílica da Penha,  na Rua São José, a poucos minutos a pé do Hotel

No sentido latos das palavras, não sei porque pensei assim – aquilo não é, ao ficar olhando da janela sem nenhuma lembrança do filme de Hitchcock, mas fomos avisados que à noite, o centro antigo do Recife é perigoso.  E onde não é?
Perto da meia noite,  vi duas mulheres as gargalhadas gritando: “cadê os homens dessa terra” e eu quis correr para entrar naquele desenho, sair do quarto do hotel e nunca mais, nunca mais.

Naquilo-que-é, aquilo que eu vi, sonhei, imaginei (que será muito e nunca será tudo, e talvez nem caravelas), o que foi, porque foi que eu queria sair dali com minha última gargalhada, eu e as duas mulheres. (como todas às vezes, o centro do Recife à noite não dar para resumir, ou se quisermos, a recensão em ato, daquilo que não vivemos, que nos permitiremos introduzir num lugar qualquer, mexe qualquer coisa, mexe).

Solidão está longe do quarto de um hotel, solidão vem da intimidade. E aqui talvez de novo a imagem da saudade. Ou, uma palavra retirada do contexto, que não fosse solidão, porque só é solitário quem  não tem um livro para ler. E quem não sabe ler?

 Não é isso-tal que eu estava a pensar, aquilo que antes era dado pelas musas, as ninfas, o talento com que deve atirar-se ao texto, e levantá-lo. Mas eu não sou mais menino, fechei a janela e fui dormir, pois, eu só queria que amanhecesse dia e algo viesse a calhar.

 Kapetadas

1 – Em certas épocas, o absurdo não só acontece, ele toma posse

2 – Hoje os robôs estão cada vez mais humanizados e os humanos cada vez mais robóticos

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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