De uma postagem de Nelson Motta veio a indicação do livro ´João Gilberto a insurreição bossa-nova: outros lados da história´ (selo L&M Editores), do jornalista Tarik de Sousa, 444 páginas, sem fotografias, só textos e muitas descobertas.
Tarik abre o livro com Vinícius de Moraes, o ´Poema de Natal´ de 1946, “Para isso fomos feitos, para lembrar e ser lembrados” e segue a viagem de João Gilberto, citando novamente o poeta Vinícius de Moraes, que é lembrado outras vezes no livro, assim como Tom Jobim, Johnny Alf e uma centena de bossonavistas.
Os versos de Vinícius: “Chega de saudade/ a realidade é que sem ela não há paz/ não há beleza/ é só tristeza e a melancolia/ que não sai de mim/ Não sai de mim, não sai”, – apesar da estrutura tradicional da composição, (letra de Vinícius e melodia de Tom Jobim) a gravação lançada em agosto de 1958 por João Gilberto, com sua emissão minimalista, de barítono propositivo, mas discreto, levemente anasalada provocaria uma hecatombe no acomodado mercado da época e deu início oficialmente a insurreição bossa-nova. Tudo em apenas 1 minuto e 59 segundos. É demais, né?
Um trecho do livro: “a partir da fusão do samba com o jazz, resultado da obra do pianista, compositor e cantor Johnny Alf, a bossa-nova começou a ganhar forma através das lapidações de gente como João Donato, Tom Jobim, Newton Mendonça, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Oscar Castro Neves, Luís Bonfá e, obviamente, o farol do movimento, João Gilberto”
Tarik destaca os três discos mais famosos e seminais de João Gilberto, que lançaram as bases da Bossa Nova no final da década de 50 e início de 60, Chega de Saudade (1959), O Amor, o Sorriso e a Flor (1960) e João Gilberto (1961). Esses álbuns formam uma ´trilogia´ fundamental para a música brasileira os monásticos LPs que colocaram João no Mapa-Mundi da Música.
O livro é João Gilberto por inteiro, sua batida eterna, que tomou de assalto o planeta, influenciando do jazz ao pop. Na obra, o autor desconstrói preconceitos, esquadrinha o pluralismo da bossa e seus praticantes – e desvenda outros lados dessa história, que ele vivenciou e documentou em mais de meio século de jornalismo. Viva Tarik! O livro é um filme. Está tudo lá: ´Estrada branca´ ´Doralice´, ´O Sapo´ – disco a disco etc
Caetano Veloso é muito citado no livro, já nas primeiras páginas com trechos das canções Tropicália (1968)– ´Viva a Bossa-sa-sa, viva a palhoça – ça -ça -ça ça. Eu, você, João, girando na vitrola sem parar (Saudosismo, 1968) e que aprendemos com João para sempre ser desafinados. Em ´Meu Coco´, (2022) Caetano Veloso cita mais uma vez JG e Tarik registra: ´João Gilberto falou e no meu coco ficou, quem é quem és e quem sou? Somos chineses´.
Só um spoiler – na página 39, João manda para Tarik de Sousa uma bebida israelense hermeticamente embalada, mas dentro disfarçada, uma porção da célebre maconha da lata.
No Rio, a semana passada, quando comprei o livro, mandei um imêio para Caetano Veloso, que respondeu: “Já li, Kubi. Logo que saiu a editora me mandou um exemplar e li todo”
Na página 369, numa entrevista que Dorival Caymmi concedeu as páginas amarelas da Veja, em maio de 1972, ele diz que gostaria de ter gravado suas canções como João Gilberto cantou.
João, uma rara complexidade.
Kapetadas
1 – Na lua só não tem vida porque lá não tem café
2 – O conhecimento é desconfortável, a ignorância é cômoda.
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